sexta-feira, 29 de março de 2024

TOCANDO AS VESTES DE UMA CELEBRIDADE

Venancio Junior 

Quem nunca tentou tocar as vestes de alguma celebridade? Nas grandes apresentações musicais isto é muito comum. Alguns com muito esforço em meio a cotoveladas involuntárias e empurrões conseguem esta façanha que ficará na história para os netos. Tudo bem que eles sequer saberão quem é a pessoa famosa que os avós falaram e que após alguns anos nem é mais tão famosa assim.

Qual a motivação em estar próximo de alguém que se destaca na sociedade? Para muitos isto funciona na mente como um fetiche. Na antiguidade, fetiche era como uma magia. Este tipo de “devoção” se modernizou e tem até uma conotação erótica quando a pessoa se sente seduzida por alguém famoso, por pessoas de uniforme, por pessoas musculosas e por aí segue as inexoráveis obsessões porque não se impõe um limite no esforço para atingir o objetivo. A pessoa não se importa se é algo vexatório, pois, a decisão na entrega para conseguir este grande feito está cauterizada na mente. A pessoa investe o dinheiro que não possui, mas, dá um jeitinho, se sacrifica fisicamente porque a frustração é algo impensável. Diante de tanto sacrifício, estas pessoas se tornam presas fáceis para aqueles que, mesmo sendo celebridades, não deixam de ser humanos com todos as suas limitações e defeitos. Infelizmente muitas destas celebridades se aproveitam da fragilidade emocional dos fãs e praticam abusos que deixam traumas para o resto da vida.

Jesus, na sua curta vida terrena foi uma celebridade para alguns, líder para outros e uma ameaça para os religiosos e políticos. Independentemente da consideração, todos queriam se aproximar de Jesus. A maioria para conhece-lo, outros por curiosidade e alguns outros para extrair alguma coisa que poderia “incriminá-lo” conforme a lei judaica. Lembre-se que os inimigos sempre estão por perto.

Jesus era o tipo de pessoa que provocava uma certa sedução. Somos humanos e a partir do momento que se tem uma relação com pessoas famosas, esta relação é incomum. Relacionamento tem cara, tem cor e tem cheiro característico. Não é igual com todos. Distingui três grupos com interesses incomuns, apesar de que todos tinham o mesmo objetivo que era se aproximar de Jesus. Jesus se encontrou com diversas pessoas, manteve diálogos pessoais quando precisava atingir a ferida na pessoa e com os seus discípulos, procurava sempre mantê-los próximos para que aprendessem na prática os fundamentos do evangelho. Afinal, eles continuariam a missão do Ide.

Quero destacar uma pessoa que tocou as vestes de Jesus e foi curada. Ninguém sabe o seu nome. Jesus sabia e também sabia das suas necessidades e até sentiu que saiu virtude de si quando foi tocado por causa da fé daquela mulher desesperada. Primeira dificuldade que ela encontrou foi que era mulher. Onde já se viu uma mulher fora da sua casa correndo atrás de um homem? As intenções estavam bem longe daquilo que imaginamos. Segunda dificuldade, era uma mulher que sofria de hemorragia que, na época, era considerada pela sociedade como uma pessoa impura. Terceira dificuldade, como passaria incólume em meio à multidão sem sofrer agressões físicas e ser considerada como uma mulher qualquer? Não tem como andar desesperadamente no meio da multidão sem sofrer algum toque físico. Bem ou mal intencionado, a mulher naquela condição não poderia ser tocada, pois, o sangramento era contínuo. Quem a tocasse seria considerado igualmente impuro.

Jesus era a personalidade da época, afinal, promovia curas e milagres na vida das pessoas trazendo conforto e tranquilidade para aqueles que estavam sem esperança. Podemos imaginar o desespero desta mulher. Já sofria a doze anos e a certeza de que seria liberta daquela condição vexatória e fisicamente doida estava a alguns passos. Não é pouco tempo e também não é pouco o sofrimento. No desespero, muitos ignoram a dignidade e a posição na sociedade que exercem e vão em busca quase a qualquer custo do alívio do sofrimento. A mulher tocou com fé em Jesus, por isto saiu virtude. Mas, a fé daquela mulher não começou no exato momento do toque. A fé foi construída, a princípio, pelo que ela ouviu de Jesus. A fé não é uma sensação, mas, uma construção (Romanos 1:17). Depois, se solidificou pelo enorme esforço empreendido. Imagine numa multidão em que todos queriam tocar Jesus e a mulher conseguir tocar a suas vestes? Ela não pensou no que os outros iriam pensar e ignorou que poderia passar vergonha, pois, estava sangrando sem parar. Nem passou pelo seu pensamento de que alguém ou algum dos discípulos poderia lhe impedir o acesso. A sua fé era a única motivação e a confiança em alguém que tinha absoluta certeza de que resolveria o seu trágico problema era a sua força motriz. Ela pensou em Jesus por causa da sua dor e chegou até Ele pela sua fé. Aquele ditado popular que diz que alguém vai a Jesus por amor ou pela dor chega a ser até antibíblico. A interpretação comum é que a pessoa vai por bem ou por mal. Podemos reinterpretar. Há diversos motivos que uma pessoa pode se chegar a Deus, seja de forma simples pelo ouvir e crer no amor de Deus ou através de uma necessidade urgente. A dor referida não é necessariamente física. Pode ser um desconforto, uma agonia, uma desorientação em que tudo se resumiu em dor.

É agradável ouvir canções que falam de fé, porém, ignoramos o esforço daqueles que exercem a fé para chegarem até Jesus. Não basta somente ter fé verbal ou teórica, o esforço para colocar a fé em prática irá demonstrar a legitimidade da conexão com Jesus. Fazendo uma adaptação ao texto original que aborda as obras, diria que a fé sem esforço é morta. Porém, não basta se esforçar. É preciso integridade na vida cristã para que a fé tenha a forma do texto em Hebreus 11, a certeza do que se espera e a convicção do que não se vê. A mulher logo que tocou as vestes de Jesus, não conseguiu se esconder e Jesus logo falou que foi curada porque teve fé. Ela tinha certeza de que seria curada, caso contrário, não tocaria as vestes de Jesus. Também não é pelo fato de simplesmente tocar Jesus, havia integridade na intenção da mulher. O próprio Pedro falou que muita gente tocava Jesus e como saberia quem especificamente havia lhe tocado? A mulher sabia de quem se tratava e tinha também a convicção do que não se via porque ainda sangrava e queria a sua cura.

Infelizmente, nos dias atuais, a fé tomou proporções fora do padrão da vida cristã. Muitos usurpadores do evangelho mercantilizaram a fé porque enxergou um filão de sobrevivência às custas da ingenuidade das pessoas. Dentre estas pessoas, muitos se esforçam a um deus que nada pode fazer e adotam práticas que nada tem a ver com o evangelho. O Jesus das multidões ainda é o mesmo Jesus dos grandes centros urbanos. A vida mudou, mas, Jesus não mudou e continua disponível para todos que sofrem lhes oferecendo também salvação. Jesus não está presente fisicamente, mas, a fé não mudou, sendo a mesma para se chegar as suas vestes pela fé imutável.

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