Venancio
Junior
A
teologia, enquanto reflexão sobre a palavra de Deus, tem como ponto de partida,
em regra, a fé. “Sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11:6). Isso
significa que a conexão do ser humano com Deus se dá pela fé. Você tem fé, mas
também tem um chão sobre o qual caminhar — e nem todo passo é dado apenas pela
fé. À primeira vista, isso parece bastante racional. Cremos em Deus porque
conhecemos, concretamente, a história de pessoas que viveram pela fé, algo que,
para nós, também tem uma dimensão abstrata.
A
princípio, a teologia do pé no chão não se alinha com a leitura de um texto
fora de seu contexto. Frases de efeito e jargões bíblicos usados em sermões
muitas vezes servem para provocar emoções e manter os ouvintes sob controle
intelectual. Também podem ser utilizados para incentivar contribuições
financeiras e para estimular a pessoa a frequentar uma igreja, em vez de
compreender o que significa ser igreja — duas coisas essencialmente diferentes.
A
realidade pode ser fria e cruel, e a teologia do pé no chão parte justamente
desse reconhecimento: a terra que você pisar não será necessariamente sua; o
mar não vai se abrir diante de você; nenhum morto será ressuscitado por sua
iniciativa; a água não se transformará novamente em vinho; ninguém caminhará
sobre as águas, e nenhum profeta será trasladado de um lugar para outro de
forma sobrenatural. Espere: antes que se tire uma conclusão precipitada,
esclareço que isso não significa negar que tais acontecimentos tenham ocorrido.
A teologia do pé no chão não desacredita Deus.
O
que mais ouvimos hoje são pastores e profetas reproduzindo textos bíblicos
conforme seus interesses. Algo semelhante aparece em muitos textos de
autoajuda: eles podem proporcionar alívio momentâneo, mas, se não houver uma
resposta prática, pouca coisa mudará. Os textos bíblicos precisam ser lidos sem
que a paixão religiosa impeça a reflexão crítica. É necessário considerar o que
eles significaram em seu contexto e ter cautela ao aplicar ao presente
acontecimentos e promessas ligados a situações específicas. Algumas promessas
foram dirigidas a pessoas e circunstâncias determinadas; outras apontam para a
realidade futura do Reino de Deus. O próprio Jesus nos alertou de que teríamos
aflições no mundo. A vida terrena envolve sofrimento e dificuldades. Isso é uma
realidade humana e também encontra expressão na Bíblia.
“E
eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus
28:20). Jesus estava se despedindo dos discípulos; a afirmação de sua presença
não equivale à promessa de livramento de todos os sofrimentos cotidianos. Outro
texto — “Não te deixarei, nem te desampararei” (Hebreus 13:5) — é
frequentemente utilizado em situações de desespero para trazer alívio. No
contexto, a passagem também exorta os leitores a viverem sem avareza e a se
contentar com o que possuem.
Quem,
em sã consciência, consegue perceber essa presença em meio a uma dificuldade
extrema? Conheço cristãos que passaram fome, morreram de doenças incuráveis e
sofreram acidentes fatais. Uma amiga de infância foi atropelada e morreu
enquanto seus pais estavam no ensaio do coral. Outro amigo daquela época, da
mesma igreja, também morreu atropelado enquanto passeava de bicicleta. Seus
pais e toda a família eram atuantes na igreja. Há ainda o caso de um amigo da
adolescência, músico, que estava em uma sala de aula para prestar vestibular
quando uma bala perdida atingiu sua cabeça, matando-o ali mesmo. Seu pai era
regente do coral.
Será
que o Deus onipresente não estava com eles na hora do sofrimento? Será que o
Deus onisciente não conhecia as tragédias que cada um enfrentaria? Será que o
Deus onipotente não poderia ter proporcionado livramento ou ressuscitado essas
pessoas? Até hoje busco em Deus uma explicação, mas não encontrei uma resposta
que encerre essas perguntas. Uma vida íntegra diante de Deus não é uma vida
perfeita, livre de dificuldades; é uma vida em que mente e coração procuram
caminhar juntos.
Ainda
refletindo sobre Hebreus 11, encontramos, logo no início, uma abordagem da fé e
exemplos de pessoas que viveram por ela. O que me chama a atenção é o versículo
13: “Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas”. Podemos
afirmar que Deus prometeu e não cumpriu? Vou além: os versículos 36 e 37
mencionam pessoas que sofreram escárnios, açoites, prisões, apedrejamento e
morte à espada. O capítulo termina essa sequência, no versículo 39, afirmando
que todas elas receberam testemunho por sua fé, mas não alcançaram o
cumprimento da promessa.
É
possível imaginar que muitas dessas pessoas esperassem um milagre que as
livrasse do sofrimento, afinal, eram pessoas que viviam pela fé. Na expressão
popular, para elas a esperança foi a última a morrer — e, em alguns casos,
talvez tenha morrido junto com elas. O livramento não aconteceu, e talvez não
tenham sentido a presença de Deus como esperavam. Isso contrasta com o relato
de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego na fornalha ardente, em que Deus os preservou
(Daniel 3). Nesse caso, a esperança não se apagou: permaneceu viva em meio ao
fogo. É assustador considerar uma vida de fé depois de ler esses exemplos. Qual
imagem de Deus prevalece para nós: a das pessoas que sofreram sem livramento ou
a daqueles que foram preservados na fornalha? Raramente ouço pastores ou
psicólogos cristãos abordarem esses textos para falar de pessoas fiéis que
sofreram injustiças e não foram libertas.
Na
sequência, Hebreus 11:6 afirma que é necessário crer que Deus existe e que
recompensa aqueles que o buscam. Qual é essa recompensa? As pessoas submetidas
a açoites, prisões e mortes violentas não receberam, durante a vida, o
benefício de um livramento. Uma possível interpretação cristã é que a
recompensa esteja ligada à vida eterna e à participação no Reino vindouro.
Ainda assim, permanece a pergunta sobre as dificuldades da vida terrena: será
que Deus poderia, metaforicamente, abrir o mar ou transformar água em vinho?
No
episódio das bodas de Caná, se Jesus não tivesse realizado aquele primeiro
sinal, talvez a festa tivesse continuado sem uma mudança decisiva; ainda assim,
o milagre fez diferença aos convidados. O relato pode ser lido como sinal
de que Deus também se importa com detalhes simples do cotidiano. Por outro
lado, é desestimulante quando a intervenção sobrenatural esperada não acontece,
por exemplo, em uma situação financeira quase irreversível. Isso nem sempre
decorre de irresponsabilidade nos gastos: a vida também é marcada pelo
imprevisível, e certas situações fogem ao nosso controle.
Doença,
desemprego, desencanto conjugal, frustração ministerial, depressão, crises de
ansiedade, violência urbana e tantas outras circunstâncias podem atingir
qualquer pessoa. Nelas, podemos recorrer à fé e manter a esperança, mesmo
reconhecendo que o milagre talvez não aconteça da maneira desejada. Deus pode
mudar a sorte de quem sofre — aqui, “sorte” é entendida como oportunidade —,
mas nem sempre a situação muda. Às vezes, a pessoa precisa recorrer ao plano B,
C ou D. É aí que entra a teologia do pé no chão: fé não precisa excluir o
planejamento, a ação responsável nem a busca de alternativas.
Imagine
Moisés conduzindo uma multidão que acreditava na promessa de chegar à Terra
Prometida. Segundo a narrativa bíblica, Deus falava com Moisés, e o povo
precisava confiar na condução dele. Depois de séculos no Egito, onde
predominavam outras práticas religiosas, parte daquele povo talvez tivesse
dificuldade para compreender a fé em um Deus invisível. O episódio do bezerro
de ouro mostra como procuraram representar o divino por meio de um objeto
material.
Moisés
foi chamado, segundo o relato bíblico, para conduzir o povo à Terra Prometida.
Visto de uma perspectiva estritamente pragmática, alguém que assumisse tal
tarefa sem garantias visíveis poderia ser considerado irresponsável ou
delirante. O que o motivava? A narrativa o apresenta como alguém que creu,
embora não tenha chegado à Terra Prometida. A promessa era coletiva, dirigida
ao povo, e não se cumpriu para Moisés pessoalmente da maneira que ele poderia
ter desejado.
Ao
chegar diante do mar, Moisés não sabia, de antemão, como a situação seria
resolvida. Do ponto de vista humano, havia um obstáculo enorme e poucas opções
aparentes para uma multidão. A narrativa bíblica apresenta a abertura do mar
como uma intervenção divina. Esse episódio mostra o limite de uma postura
puramente pragmática: se a teologia do pé no chão significar excluir, por
princípio, qualquer possibilidade de ação sobrenatural, ela não conseguirá dar
conta do próprio relato bíblico. Se, porém, significar não presumir que todo
milagre narrado se repetirá em nossa vida, ela pode coexistir com a fé.
Há
outros relatos de ação sobrenatural. Como compreender, dentro dessa
perspectiva, Enoque e Elias, que, segundo a Bíblia, foram levados sem passar
pela morte da maneira comum? Também é preciso cuidado ao citar I Coríntios
1:18: o versículo não afirma simplesmente que “loucos” são os que têm fé; diz
que a mensagem da cruz é loucura para os que se perdem, enquanto para os que
são salvos é poder de Deus. A ideia de que Moisés e outros profetas foram
considerados loucos por sua fé pode ser uma interpretação, mas não deve ser
apresentada como citação literal desse versículo.
No
caso da teologia do pé no chão, seria possível falar em um “ceticismo cristão”?
Talvez seja mais preciso falar em uma fé crítica e responsável: uma fé que não
nega de antemão o sobrenatural, mas tampouco transforma os relatos bíblicos em
garantias automáticas de que os mesmos acontecimentos se repetirão. Pessoas que
não são cristãs também podem colher benefícios de uma vida responsável,
respeitosa e prudente. A fé pode afirmar que Deus tudo pode sem exigir que se
espere, como condição para agir, que o mar se abra novamente, que um morto
ressuscite ou que a água se transforme em vinho.
Manter
os pés no chão e a cabeça no lugar ajuda a evitar decisões aventureiras e
riscos desnecessários. Responsabilidade financeira, atividade física,
alimentação equilibrada e sono de qualidade também contribuem para o bem-estar
e para uma vida mais saudável. Esses cuidados não resolvem todos os problemas
nem eliminam o sofrimento, mas fazem parte de uma maneira concreta de cuidar da
vida. Talvez a teologia do pé no chão esteja justamente nesse equilíbrio: fé
sem promessas fáceis, esperança sem ingenuidade e espiritualidade acompanhada
de responsabilidade.