terça-feira, 12 de março de 2024

LEMBRANDO DE DEUS NA TEORIA

Venancio Junior

A religião nunca foi tão buscada e propagandeada. Em tempos de multimidia diversas, a facilidade em expor os posicionamentos políticos e, principalmente religiosos, revelou que há uma carência espiritual nas pessoas. Quanto mais intensa esta busca e o grau de sacrifício imposto, mais profundo é o vazio interior. O problema não está em buscar uma força superior que faça diferença na vida, mas, qual tipo de deus que está se buscando e as formas aplicadas para que o objetivo seja atingido e as necessidades satisfeitas. Neste processo, se distingue dois grupos principais. O primeiro é formado por aqueles que compreenderam e aceitaram o evangelho de salvação e alcançaram de alguma forma os seus intentos através da graça de Deus e conforme a sua boa, agradável, perfeita e soberana vontade e no outro grupo pertence àqueles que continuam a busca e mantem os rituais que lhes foram ensinados e, muitas vezes, criam suas próprias performances devocionais e vivem confortavelmente a superficialidade da teoria da religião.

No caso dos dois grupos, permeia a disciplina que é uma postura abstrata que pode ter uma característica de costume ou ritual onde prevalece uma rotina. É algo fundamental em todas as áreas da vida. Sem a disciplina, muitas coisas se perdem e os resultados almejados não chegarão. Na vida mística/religiosa, a disciplina pode ser uma libertação ou escravidão. A disciplina libertadora tem os seus fundamentos no evangelho que apresentou Deus para o ser humano. Não adianta insistir na crença de que qualquer religião leva a Deus. Aliás, nenhuma religião leva a Deus, pois, por si só se apresentou como criador da existência. Deus é educado, “...chegai-vos a Deus e ele chegará a vós” Tiago 4:8. É preciso o passo inicial para iniciar esta grande jornada rumo a espiritualidade genuína. Não basta ter disciplina com os processos errados. Não basta investir emoção para deuses errados. Chegar a Deus é conhecê-lo a cada dia e gerar um relacionamento de intimidade entre pai e filho ou entre criador e criatura. Este processo vai muito além da teoria em que os rituais são vazios. O relacionamento com Deus não envolve entidade, mas, pessoas para exercitar e crescer na comunhão. Também não adianta amar a Deus que não vê e não amar ao próximo que vê, inclusive aqueles que são potenciais inimigos. O envolvimento através dos talentos também faz parte da disciplina sendo uma das cobranças que Deus fará no juízo final. A parábola dos talentos não é apenas mais uma “historinha sem importância”. Tudo deve ser feito para a glória de Deus e os talentos têm esta única finalidade em glorificar a quem ofereceu gratuitamente todos os talentos. "Assim, seja comendo, seja bebendo, seja fazendo qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" 1 Coríntios 10:31. Nada referente a isto é prodígio do ser humano. Jesus quando estava sendo julgado afirmou a Pilatos: “Nenhum poder você teria se do alto Deus não lhe concedesse” João 19:11. Mesmo o contexto sendo totalmente diferente posso afirmar que nenhum talento qualquer pessoa teria se do alto Deus não concedesse.

Infelizmente existem muitos que conhecem a verdade e na prática abandonaram a libertação que foi concedida. Possuem talento e habilidade para serem investidos na expansão do Reino, porém, vivem uma vida cristã somente na teoria. Nos tempos modernos com o auxílio da facilidade das mídias sociais levam uma vida cristã na teoria. Compartilham coisas de Deus, mas, não vivem aquilo que compartilharam. Limitam-se a apenas navegar pelo celular deitado na cama exortando os outros pelas redes sociais e falando em vida cristã sem assumir como uma autocrítica. Criticam os falsos profetas, mas, na prática, a farsa está no vácuo da teoria. Falam de amor, mas, não vivem a comunhão com os irmãos. Falam que o mundo está perdido sem Deus, isto é fato, mas, se perdem em meio as meras teorias vazias em que o talento não resultou em conteúdo que faria diferença na vida das pessoas porque não há envolvimento prático. Deus irá cobrar o que foi feito com o talento. "Pois quem usa bem o talento que lhe é dado, ainda mais será dado, e terá em abundância. Mas, quem é infiel, mesmo sendo pouco o talento que ele tem será tirado. Agora joguem este servo inútil para fora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes” Mateus 25:29,30. Deus joga muito pesado chamando aqueles que levam uma vida cristã na teoria de inúteis. Sei que está muito associado as palestras dos “coaching”, mas, Deus também gosta de resultados. Na bíblia é a tradução para render frutos para o Reino. "E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo" Mateus 3:10. Este é o mesmo conceito da parábola dos talentos. Multiplicar os talentos é produzir bons frutos.

Um exemplo de falta de disciplina que leva a pessoa a se lembrar de Deus somente quando as coisas não estão bem é o texto relatado na história do filho pródigo. O filho mais novo exigiu do pai antecipadamente a sua parte na herança e sumiu no mundo para viver a sua vida do seu jeito. Perdeu a disciplina que aprendeu em casa e se perdeu completamente tendo que comer a mesma comida dos porcos. Neste estado miserável, lembrou-se do conforto da casa do pai. Teve que dar novamente o primeiro passo rumo a jornada de reconstrução da vida que tinha. Não é fácil reconhecer os próprios erros e se humilhar para viver de novo a liberdade de uma vida disciplinada. O pai o recebeu de braços abertos e com muita alegria. Da mesma forma, Deus também nos recebe de volta quando nos arrependemos da nossa vida indisciplinada. A disciplina que nos escraviza é aquela em que perdemos o foco e a consciência de que fomos feitos servos para servir ao Deus que nos garante a liberdade da disciplina para usufruir de uma vida abundante de frutos.

Tem aquele grupo de religiosos que são muito disciplinados e impõem a si mesmos sacrifícios como gratidão ou devoção para fortalecer a espiritualidade. Vivem a religião da casca de cigarra. A cigarra quando troca a roupagem, ela deixa a casca no formato do seu corpo, porém, é oco por dentro. Tem aparência, mas, não tem conteúdo. Muitos dos sacrifícios religiosos tem este fundamento com aparência de religião, mas, é oca por dentro. Mesmo mantendo a rigidez da disciplina, em nada resulta porque são baseadas em teorias vazias. O sentimento principal e, muitas vezes único é manter a tradição. Jesus exortou aqueles que valorizam mais a tradição do que o seu evangelho. Suponhamos que todo ritual é direcionado a Deus. Tudo certo neste caso? Claro que não porque os rituais fogem das ordenanças bíblicas. Primeiro que todo sacrifício Jesus já fez na cruz e não há mais necessidade de qualquer esforço neste sentido. A dinâmica de toda atividade na relação com Deus é de adoração em espírito e em verdade. Noutras palavras seriam conexão e dedicação e sinceridade com ações. É risível quando as pessoas supostamente recebem alguma benção e dedicam um sacrifício desproporcional. Decidem fazer uma longa caminhada e alguns o faz de joelhos causando feridas profundas. Onde está escrito na bíblia que isto é uma exigência de Deus? Se for exigência dos homens, é sacrifício de tolos. Por que não dedicam algo bom? Um talento que se tenha, dedique a Deus como gratidão. Dedique uma música, uma poesia ou qualquer outra expressão artística.

Lembrar de Deus é muito bom principalmente quando, em tese, não há motivos de favores recebidos. Sempre devemos lembrar de Deus pelos seus grandes feitos como diz o salmista. Toda lembrança deve vir acompanhada intencionalmente por expressões de louvor e gratidão.

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