terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CELEBRIDADE ALGODÃO DOCE

Venancio Junior

Todos, por algum motivo, têm suas celebridades de “estimação”. Estas pessoas muito e até excessivamente admiradas se destacam nas diversas camadas da sociedade seja no mundo artístico, esportivo, empresarial e agora também no mundo religioso. Para estes astros e estrelas isto é muito comum e também necessário e não conseguem ter uma vida normal por causa do assédio. Mesmo assim eles buscam a atenção das pessoas, gostam muito e precisam disto diariamente. Do outro lado, os fãs que são os principais alimentadores da vaidade dos seus ídolos, querem saber de tudo da vida dos seus idolatrados e, se possível, conviver com eles. A entrega é tão absurda que estes “apaixonados” fãs perdem o amor próprio comprometendo a dignidade e o respeito. Quando chega a este nível, muitos valores são ignorados e até mesmo descartados. No cotidiano da vida comum, onde não existe celebridade, isto também acontece, por exemplo, na rua e no bairro no grupo de amigos, na igreja e até mesmo na família, sempre tem alguém que admiramos e apreciamos e, muitas vezes nos apaixonamos e temos a propensão de entrega parcial ou total a esta pessoa que veneramos. Acontece também com estranhos, onde conhecemos alguém que nunca vimos e, de repente, algo chamou a atenção e, por algum motivo desconhecido, procuramos estar sempre com ele (a). Não é estranho admirar alguém que esteja fisicamente perto, porém, longe do nosso mundo? Por outro lado, é raro admirar alguém que também esteja sempre por perto no círculo de relacionamento que pertença ao mesmo contexto social e que, talvez, mereça tal valorização. A família, a proximidade é natural. Os amigos surgem e a proximidade é circunstancial. E a intimidade conjugal entre pessoas que assumiram compromisso de entrega e dedicação e se tornaram muito próximas uma da outra, alguém pode me dizer se o seu cônjuge ainda causa admiração? Afinal, se existe alguém que merece admiração e respeito, este alguém é aquela pessoa que assumiu o compromisso de cuidar, respeitar, não medir esforço e exprimir suas emoções em cada comportamento. Não é assim que os fãs fazem? Diferente dos ídolos, a pessoa da sua intimidade age com dignidade e respeito? Tem alguns que, além destas qualidades, ainda possuem o tempero natural do charme e da elegância. Não importa se está velho e se as rugas começam a se destacar na aparência, este tempero não é um artefato, mas, é comportamento. Pessoalmente digo que são poucas as pessoas que me despertam a admiração.

No mundo atual, a facilidade de exposição da imagem revelou a mediocridade das pessoas que tentam demonstrar o que na realidade estão longe de ser. Qualidade não se compra. Pode até ter um personal para cuidar da imagem, mas, o que é intrínseco no caráter não se consegue com treinamento. Conheço pessoas aparentemente boas, porém, numa determinada situação em que se é exigido, o obscuro e o inimaginável são escancarados e o pior da pessoa é exposto sem limites e que comprometem aquela falsa imagem de boa gente. Cada pessoa é única e precisa se cuidar para desenvolver o seu naturalmente melhor. Administrar os impulsos de vingança, inveja, vaidade e tantas outras más qualidades é muito difícil e exige renúncia em se expor em excesso. O melhor é deixar que descubram o que você é nas diversas situações que surgem quando as oportunidades são importantes para revelar o melhor de si despertando a admiração. No relacionamento a dois, estejam sempre dispostos a servir e ser alguém positivo na vida um do outro, afinal, este outro é alguém que você deve admirar pelas suas qualidades. Quando o relacionamento já não desperta a admiração, mesmo que o outro já não seja alguém que se se admire, nada faça para diminuir ou prejudicar e mantenha sempre a postura de respeito mútuo.

Já no caso das celebridades, as qualidades é um algodão doce. Tem até uma aparência que atrai, porém, não tem conteúdo e o seu doce sabor é instantâneo.

No relacionamento social, o contexto é muito abrangente e a proximidade não é algo, de certa forma, obrigatório. Mas, há um detalhe importante. Neste nível de relacionamento a proximidade acontece se houver algum tipo de atração ou se desperte algum tipo de admiração para que o comportamento seja motivado pela aparente qualidade da pessoa. Permitir que a pessoa faça parte da sua vida é uma decisão pessoal em que razão e coração deverão decidir juntos. 

Será que a aparente sedução vai se enraizar? Será que os valores eram meramente imaginários? Será que as expectativas foram construídas naquilo que o admirador esperava do admirado e não naquilo que era na realidade?

De qualquer forma, sempre devemos ser tardios em reagir. Jamais esperar muito mais do que a pessoa admirada possa oferecer. Pode acontecer em que a pessoa supere as expectativas ou fique muita aquém daquilo que se esperava que é o que muitas vezes acontece.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

A POLÍTICA DA RELIGIÃO

Venancio Junior

Quem são estes evangélicos politicamente engajados? Não muito antigamente, o único envolvimento dos evangélicos, principalmente das igrejas pentecostais, no cenário público urbano era a concentração nas praças para falar do amor de Deus. Quantos desfiles pelas ruas acompanhados de uma banda (fanfarra) enquanto se distribuíam folhetos evangelísticos? Eu, pessoalmente era um destes que distribuía estes folhetos. Ainda garoto com os meus 11 anos estava lá todos os domingos oferecendo o folheto para cada um que estava observando o desfile dos crentes que era o termo usado pelos incrédulos para identificar aquele povo que vivia à margem da política, pois, confiava somente em Deus para suprir todas das muitas necessidades que sentiam porque a maioria dos crentes pertencia a uma classe social mais pobre. O contexto social e religioso era que o rico era católico e o pobre era crente. Nem todo católico era rico e nem todo crente era pobre. O interessante é que este tipo de evento foi inspirado nos populares carnavais de rua dos anos 50 quando alguns músicos voluntários saiam pelas ruas tocando marchinhas e acompanhados por uma multidão. Os evangélicos históricos ficavam escandalizados com este tipo de evangelismo e evitavam serem chamados de crentes e se identificavam como "cristãos reformados", inclusive até mesmo para não serem confundidos com a classe pobre. O carnaval de rua surgiu porque a elite pulava carnaval nos clubes privados em que os pobres não tinham acesso e a opção era pular carnaval nas ruas. Não muito tempo depois o carnaval de rua foi democratizado e todos, sejam ricos ou pobres, pulam e brincam no mesmo bloco.

E os desfiles dos crentes, o que aconteceu? Não se vê mais nas ruas nos finais de semana. Onde estão eles? Será que são os mesmos que atualmente vão às ruas vestidos de verde e amarelo defendendo os princípios da moralidade? Qual a similaridade do grupo de ontem com o grupo de hoje? Já me adianto que este grupo religioso politicamente engajado já existia mesmo antes de Jesus nascer e quando se apresentou como o Messias veio a sofrer muito com os chamados legalistas religiosos. Neste tempo, este grupo religioso denominado de legalistas formado principalmente pelos líderes religiosos da época, os sacerdotes, já defendiam os princípios da lei que aprenderam e acreditavam e incitavam a multidão para ficar na linha de frente e reforçar o coro em favor dos seus interesses. Este grupo ainda existe e ainda continua sendo radical e não aceita ingerência de qualquer natureza, nem mesmo de Jesus.

Saibam que nem todos aqueles que saem às ruas de verde e amarelo em defesa da moralidade são, de fato, evangélicos. Na verdade, a maioria professa a religião católica e se juntou ao grupo de crentes pentecostais e também aos cristãos históricos que nunca saiu às ruas, mas, agora empunham a mesma bandeira contra o comunismo, contra o aborto e contra o homossexualismo principalmente. Para os mais novos e aos desinformados, crentes e católicos já foram inimigos históricos. Nos anos 40 e 50 os crentes eram perseguidos pelos padres que protegiam o seu rebanho dos pastores que distribuíam bíblias nas praças. Meu pai sofreu perseguição dos padres. A rixa era tão grande que nos hospitais, os médicos na sua maioria esmagadora eram católicos e não atendiam quem era crente. Minha mãe teve dois filhos que morreram ainda bebês e não poderiam ser sepultados no cemitério da cidade. Meu pai carregou o caixãozinho de um deles no ônibus e teve de sepultar bem longe da cidade porque era crente.

O que uniu este povo que antes era inimigo? O que mudou para que se unissem numa só causa e o que tem em comum estes dois principais grupos? Ninguém está preocupado com salvação, perdão de pecados, arrependimento e o reino de Deus que deveria ser as principais pautas de reivindicação. A maioria, mesmo os evangélicos, não conseguiria discorrer sobre estes fundamentos da doutrina do evangelho. A política e a religião é o campo comum, porém, agora tolerantes porque a doutrina tem diferenças fundamentais que geram até brigas noutros contextos. A conclusão a que se chega é que, se a religião é tolerante e na política não existe um debate aprofundado de ideias, então, o que restou neste cenário se chama ignorância e preconceito. A bandeira religiosa está esfarrapada de tanto que apanha e o campo político está desgastado pela ganância do dinheiro e pelo poder de influência.

A elite social brasileira tem característica de um radicalismo feudal onde se julga como a única opção de sobrevivência financeira legítima em que todos dependem dela. Qualquer outra ideologia que afronta este conceito egoísta que teoricamente vá comprometer o conforto dos dominadores é passível de repúdio. Distribuir a renda de forma que todos gerem as suas próprias riquezas é algo impensável e está fora de qualquer questionamento. Não existe riqueza sem a complacência do pobre assalariado que se submete ao sistema por questão de sobrevivência sendo responsável direto pela pior parte no processo. A ideologia que esta elite social tem repugnância é o socialismo/comunismo. É o medo de perder tudo e ficar pobre. Até mesmo o pobre se tornou capitalista como se bastasse acreditar cegamente que tudo vai melhorar. Já os crentes, ricos ou pobres, nem querem ouvir falar em comunismo porque acreditam que é uma ideologia que nega a Deus. Toda ideologia fundamentalmente é um campo aberto. Já num regime de governo democrático se pode ser socialista e capitalista ao mesmo tempo. Porque não ser rico e justamente generoso? Negar a Deus é uma prerrogativa pessoal e não existe ideologia política que seja taxativa nesta questão. Por incrível que pareça, todos aqueles que repudiam o comunismo, nunca questionaram o ateísmo que é negar a Deus e não é nem de perto um dos temas defendidos porque desconhecem o seu fundamento. Falam contra o comunismo, mas, a maior preocupação é sempre com o aborto e o homossexualismo.

Mas, e o capitalismo que defendem, deve ser abraçado sem conhecer os seus fundamentos? No antigo testamento era proibido emprestar com juros e no novo testamento na parábola dos talentos, o próprio Jesus expôs que o empregado que não rendeu juros no talento é um servo ruim. Na Bíblia não existe uma explanação política sobre ideologia, mas, sobre atitudes que vão além daquilo que se conhece. Todo conceito humano tem princípio nas leis de Deus e Jesus veio para cumprir estas leis (Mateus 5:17). Se atentarmos para os fundamentos daquilo que Jesus ensinou, as atitudes que o evangelho de Jesus expôs tem mais proximidade com o comunismo, pois, tem fundamentos socialistas e repudia o capitalismo quando lemos que se deve servir a Deus ou ao dinheiro. No livro de Atos 4:32 conhecemos mais sobre a igreja primitiva em que tudo o que as pessoas possuíam, lhes eram comuns, ou seja, pertenciam a todos para que ninguém passasse necessidades. Outro texto ainda mais forte na parábola em que Jesus falou ao jovem rico que vendesse a sua riqueza e distribuísse o dinheiro aos pobres (Mateus 19:21). Um evangelho radicalmente comunista de atitude que demonstra que pertencer, neste caso, não é possuir, mas, usufruir. O jovem rico possuía muitos bens e o seu coração estava nas suas riquezas e queria mais possuir do que usufruir. No princípio do Gênesis se Deus falasse para Adão que o mundo inteiro lhe pertencia, seria algo sem sentido. Ao invés disso, Deus falou que tudo era para que ele usufruísse. Porque ser rico é poder aproveitar aquilo que possui e deve ser uma benção de Deus e jamais deve ter como propósito o egoísmo, a avareza e a ganância.

Deus não está numa caixinha como se fosse de estimação conforme sua ideologia. Nem socialista, nem comunista, nem capitalista, anarquista ou qualquer outra, pois, o foco de Deus é atitude que faça diferença na vida das pessoas e que o evangelho seja comum a todos. O princípio do evangelho é a vida em Deus que não se identifica com a política e nem com a religião seja ela qual for. Este grupo que utiliza a política para falar de princípios não chegará a lugar algum e, devido ao radicalismo, as consequências é a discriminação de pessoas, a incitação ao ódio e o partidarismo. Deus permite que estes extremismos aconteçam, mas, não compactua e não designou os discípulos para falar de política e nem de religião, mas, do evangelho de salvação para todos. O nosso compromisso com Deus não é ter uma forma politicamente correta e nem falar de suas leis religiosamente corretas.

sábado, 26 de abril de 2025

PAPA NA LÍNGUA

Venancio Junior

O Papa Francisco se foi e deixou um legado religioso e político que tem feito diferença na vida das pessoas, principalmente católicas.

O papa nem sempre foi denominado como papa. Outra questão importante. Porque a sede da igreja cristã é em Roma e não em Jerusalém onde Jesus foi crucificado e sepultado? Como sabemos pelos relatos bíblicos, Roma era avesso ao cristianismo, inclusive, milhares de cristãos foram perseguidos e sacrificados em Roma. O papa é o herdeiro do legado de Pedro que morreu e foi sepultado em Roma. Conforme a tradição, o túmulo dele está sob a basílica de São Pedro no vaticano.

O título exclusivo de papa concedido ao chefe da igreja católica apostólica romana foi adotado no século III. Antes, todos os clérigos eram papas ou simplesmente bispos conforme os textos bíblicos. Papa vem do grego “pappas” ou latim “papa” que significa "papai".

Uma declaração do papa Francisco que me chamou a atenção foi: “O oposto da fé não é a incredulidade. O oposto da fé é a idolatria”. Engana-se quem julga que o papa estava se referindo aos inúmeros ídolos expostos nas igrejas católicas. Os apóstolos e as diversas pessoas comuns que se tornaram santos canonizados com as bençãos dos papas e o próprio Jesus fazem parte deste grupo de imagens de barro, de ferro, de gesso, de madeira, de ouro, de prata e de diversos materiais conforme as criatividades dos artesões. Independentemente das habilidades e sensibilidades dos artistas, todas as imagens foram destinadas para fins religiosos. Nem mesmo a cruz se livrou da idolatria, provavelmente a que tenha mais imagens espalhadas pelas igrejas ao redor do mundo. Não somente a igreja católica, mas, as imagens se tornaram um amuleto de devoção e intercessão inerente ao deus de cada segmento religioso. A idolatria ao que o papa se refere é amor e confiança aos bens materiais. Muitos se afastaram da igreja porque se julgam auto-suficientes e não precisam de um deus qualquer para seguir e depositar a sua confiança.

O que a bíblia fala sobre os ídolos? Será que são os mesmos ídolos que o papa se referiu ou vai muito além abrangendo toda e qualquer forma de idolatria? O primeiro relato de idolatria na história bíblica foi o famoso bezerro de ouro construído pelo povo hebreu após serem libertos da escravidão no Egito. Moisés era o líder e tinha subido ao Monte Sinai para receber as orientações de Deus para aquela jornada em busca da terra prometida. O povo estava impaciente com a demora e pediu a Arão, irmão de Moisés para que permitisse fazer um deus, pois, precisavam de uma “adoração palpável”. Fizeram um bezerro de ouro. Porque um bezerro? No Egito era comum adorar o touro Ápis e a vaca Hator que representavam força e fertilidade. Os hebreus para não se assemelharem aos egípcios optaram pelo bezerro que tinha a mesma consideração de força e fertilidade. Obviamente que Deus não gostou nada disto em ser substituído por um objeto inanimado e que representava a riqueza material. Este comportamento demonstra que a fé que boa parte do povo hebreu praticava era passível de questionamento. Deus nunca havia se materializado e o povo tinha uma enorme dificuldade em crer e confiar em algo ou alguém que não enxergavam. O povo religioso gosta e exige um deus palpável para criar uma relação de textura miometrial em que não há qualquer alteração no princípio da fé. Ela brota e vai crescendo até vir à luz teoricamente saudável. Este termo é utilizado quando o feto está bem protegido no útero e se encontra em perfeitas condições na sua evolução. Moisés desceu alertado pelo próprio Deus e quando viu aquilo ficou furioso e Arão afirmou que o povo tende ao que é mal.

Moisés recebeu de Deus os dez mandamentos que começa assim:

"Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor, teu Deus...". Imagem de escultura é absolutamente tudo o que se faz para adoração e para prestar culto. Não importa se é a imagem de uma pessoa ou de um objeto. Neste caso, a cruz também é uma imagem de escultura. O que mais se vê nas igrejas nas celebrações de festas de páscoa é a cruz. O único símbolo permitido por Deus é o pão em que Jesus afirmou na celebração da ceia com os apóstolos “Em memória de mim...”I Coríntios 11:23. Este símbolo não é para criar uma imagem, mas, para se lembrar de que o corpo foi sacrificado e o vinho representa a aliança do sangue derramado para o perdão dos pecados. Tudo o que se faz fora disto é idolatria. Adorar imagem e prestar culto é abominação ao Senhor e tem o mesmo deboche da veneração ao dinheiro e a riqueza. Jesus fez o gesto apenas para se lembrar do que foi feito na cruz.

Este mesmo Jesus foi perseguido e desacreditado pela religião. Os judeus não adoravam e não cultuam imagens, porém, rejeitam Jesus como o Messias. Jesus foi enfático quando criticou os religiosos que valorizavam mais a tradição de qualquer religião do que o evangelho e o poder de Deus. “...E assim abandonais o mandamento de Deus, apegando-vos às tradições dos homens” Marcos 7:8. Jesus nunca deixava para depois e falava o que precisava ser dito. A idolatria que é o culto e adoração a imagens desde o tempo de Moisés se tornou uma tradição religiosa condenada por Jesus dentre outras coisas. Afirmar que os cristãos pertencem ao cristianismo e dizer que acreditar em Deus é ser religioso é limitar o poder de Deus a uma denominação meramente humana. E o que Jesus fez não foi para libertar a humanidade da religião, mas, da condenação do pecado que mantem as pessoas fora da presença de Deus.

Vamos a alguns textos sobre idolatria. Isaias foi cruel no sentido de profundidade crítica em relação a idolatria. "...nada sabem os que conduzem em procissão as suas imagens de escultura, feitas de madeira, e rogam a um deus que não pode salvar". Isaias 45:20. No texto de 46:6 a referência é de ídolos de ouro e prata que não se movem. No novo testamento também há diversos textos referentes a idolatria. Em I Coríntios 10:14,15,16 Paulo coloca a idolatria como o oposto do que Jesus demonstrou com o pão representando o seu corpo e o vinho representando o seu sangue. Quem tem comunhão representado pelo pão e o vinho deve fugir da idolatria. “Portanto, meus amados, fugi da idolatria. Falo como a sábios; julgai vós mesmos o que digo. Porventura, o cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo?”. Da mesma forma que as imagens de deuses e pessoas, não se deve participar do cálice e do pão diante da cruz ou de qualquer outro ídolo. Jesus não estava com uma cruz na ceia. Estava com o pão e depois o vinho “...este é o meu corpo e este é o meu sangue”. Orar diante da cruz ou de qualquer outra imagem é inútil. Obviamente é idolatria, pois, a cruz não representa comunhão. Devemos orar sempre a Deus em nome de Jesus foi o que ele nos ensinou.

Sem “papas na língua” digo que a afirmação do papa não faz qualquer sentido quando diz que o oposto da fé é a idolatria. O oposto da fé é a incredulidade e o oposto da idolatria é a liberdade. A idolatria é uma prisão da fé. Até mesmo o cético crê. Crer ou não crer são opostos antagônicos e precisam de parâmetros para coexistirem. Devemos seguir o que a bíblia diz: “O crente deve ser fiel a Palavra” Romanos 2:16. Em nenhum texto bíblico se encontra alguma fidelidade a ídolos. Pelo contrário, a adoração aos ídolos é condenada na bíblia.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

SEXUALIDADE AVACALHADA

Venancio Junior

Já escrevi sobre sexualidade e o tema sempre volta à tona porque o mundo é imoral e considero o relacionamento sexual um envolvimento espiritual porque transcende a racionalidade. O orgasmo e o êxtase sexual não é algo programável e ninguém consegue descrever. Qual é a cara e o sentimento do ápice do sexo? Não existe resposta inteligível. Será que esta é a resposta da sedução? Será que é por isto que as pessoas são mutuamente atraídas? A atração sofreu uma profunda desconfiguração. Atração pelo sexo oposto não é mais privilégio dos heterossexuais. O sexo contíguo se tornou atraente também.

A princípio, o sexo é relação de corpo de gêneros distintos dentro do contexto humano. Quando se fala em sexo, logo vêm à mente o pecado. Quando que o sexo é pecado? Conforme a bíblia nos mostra, é no relacionamento extraconjugal, no relacionamento quando ainda não há compromisso conjugal e a bíblia trata isto como fornicação e nos relacionamentos homossexuais que contrariam o termo dos opostos que se atraem. Isto está diretamente relacionado aos órgãos genitais que são opostos (diferentes) entre si. Atualmente as pessoas exigem que as opiniões sejam respeitadas. Concordo, porém, a verdade é uma só, as demais são apenas versões. Não existem duas ou mais verdades. Uma questão de lógica.

O sexo no contexto do mundo atual não é diferente dos tempos bíblicos quando aconteciam as orgias, o homossexualismo era discreto, mas, existia, prostitutas, traições e toda espécie de comportamento sexual difuso, tais como a zoofilia que é o relacionamento com animais que não pode ser considerado uma relação sexual. O problema da imoralidade é que se perde a elegância, o charme e o respeito. Isto vale para os homens também. A consideração da sociedade é que o envolvimento do homem com o sexo indistintamente é algo natural e demonstra virilidade. Para as mulheres, o envolvimento compromete a honradez que a torna uma pessoa vulgar. Tanto para um como para outro, estas práticas, seja no adultério ou casual quando não se tem compromisso conjugal não deixa de ser imoral comprometendo a qualidade da pessoa devido o envolvimento em práticas de baixo nível. Porque o homem é admirado quando esbraveja que “pegou todas” e a mulher é mal vista quando faz parte da lista do homem que “pegou todas”? O homem não deve ser valorizado por “transar” com todas e nem a mulher por “transar” com qualquer um. Admiro pessoas que se comportam aquém dos avanços da sociedade e se preservam sendo respeitosas no comportamento.

A imoralidade prossegue e atinge aqueles que ainda não conseguem sobreviver sem o apoio dos pais. Com a facilidade dos recursos das redes sociais, a postagem de vídeos envolvendo a sexualidade se tornou algo banal. Não existem mais limites. Outro dia assistindo a um filme de uma família normal para os padrões de hoje, a mãe se dirigiu ao quarto do filho ainda adolescente e flagrou uma amiga do filho fazendo sexo oral e o amigo estava filmando e ainda deram uma bronca na mãe por não bater na porta. A mãe se desculpou e saiu. Algo normal, não choca mais. Porque estava filmando? Obviamente para postar nas redes sociais. Banalização de algo que deveria ser um prazer e com responsabilidade e compromisso. E não é somente isto. Já existe nas festas de adolescentes (geralmente acontecem nos bailes funks) em que não há uma supervisão de adultos a “roleta-russa” do sexo. Numa roda de cadeiras com garotos com o pênis ereto e a garota escolhida vai sentando em cada um até alguém ejacular. Numa destas “brincadeiras” uma garota, ainda criança de apenas 13 anos ficou grávida e, obviamente, ninguém saberia quem era o pai. Típico sexo avacalhado.

Porque a bíblia considera como imoral estes diversos tipos de relacionamentos? Afinal, a busca é sempre por prazer. Tudo aquilo que agride a natureza de Deus é passível de ser considerado imoralidade. O próprio Deus nos deixou a própria sorte (possibilidades) às tendências da carne. Leia Romanos 1:24-31: “Deus entregou as pessoas a desejos vergonhosos, paixões e uma disposição mental reprovável, por causa do seu pecado e desprezo pelo conhecimento de Deus”. As pessoas se entregam a estas práticas porque se distanciaram de Deus. Conhecer a Deus é algo ultrapassado e as pessoas querem que Ele esteja fora dos seus caminhos e querem fazer o que bem entender com as suas vidas. O prazer da imoralidade alimenta o ego que precisa se submeter a Deus. As debilidades humanas nos afastam de Deus. O mundo está cada vez mais independente de Deus e o seu destino é o pior que se possa imaginar. Muitas religiões e pouco de Deus que nada tem a ver com religião. Deus deve ser visto da perspectiva da criatura que precisa de Deus. Deus criou a existência demonstrando todo o seu carinho e bondade. Porém, o ser humano está cada vez mais cheio de si e vazio de Deus. Muitos procuram Deus na religião, enquanto outros abominam a religião e consideram que seja uma alienação. Nos dois casos as pessoas andam erradas. O primeiro grupo busca a Deus e se ilude com o deus da religião. O segundo grupo vive uma vida à margem espiritual e se sente auto-suficiente.

Quando estamos fora da presença de Deus tudo aquilo que é imoral, indecente ou pecado não choca mais. A sociedade vive de uma forma que a única coisa que é má seja aquilo que prejudica o outro. Estes limites pertenciam aos anos 40. Atualmente, o prejuízo de qualquer espécie do outro não incomoda mais. As tragédias que surgem as pessoas em volta querem tirar uma self para postar nas redes. Ninguém se importa em socorrer quem sofreu um acidente. Na sexualidade é a mesma coisa, tiram uma self do sexo casual e postam nas redes sociais. Quanto mais horrendo, mais as pessoas querem expor para ganharem likes. Quanto mais humilhante, parece que é um trunfo. Banalização é uma palavra até suave. Avacalhação acho que reflete melhor o baixo nível.

TEIA DE ARANHA NO ALTAR

Venancio Junior

A saga Indiana Jones e os filmes egípcios de exploração arqueológica são as histórias mais conhecidas e exploradas pelo cinema e que reflete muito bem a situação de uma caça ao tesouro. Requer muito preparo físico e material de apoio porque os caminhos trilhados, muitos deles precisam ser reabertos porque se existe um tesouro devidamente escondido é porque alguém já passou por ali. Nesta difícil caminhada, têm-se que explorar as cavernas para se chegar até onde o tesouro está escondido. Pode acontecer também uma situação de serendipidade, que é quando se encontra algo valioso por acaso. Nesta jornada pela mata ou mesmo túneis há muitas teias de aranha que se formaram ao longo do tempo sem uma intervenção humana. Quando se chega no local propriamente dito onde se encontra o altar, as teias de aranha já ocuparam todo o espaço escondendo o tesouro. Para as aranhas, o tesouro é aquele local escuro e úmido sem alguém para incomodar. Exatamente isto o que acontece quando o local está abandonado. A poeira e a teia de aranha escondem além do caminho, todo acesso e o próprio local onde se encontra o que se buscava. Muitos já passaram por ali e não tiveram êxito nesta aventura. Mas, sempre tem aquele obstinado e teimoso explorador que consegue convencer a equipe que o acompanha a acreditar que o tesouro existe, mas, está escondido e quase inacessível para prosseguir sem desanimar apesar das dificuldades. Os obstáculos surgiram porque alguém que escondeu o tesouro não fez a manutenção necessária, talvez, o objetivo fosse deixar escondido mesmo. Quando este local tem regular manutenção, permanece sempre limpo e o acesso está sempre liberado.

Usando estas histórias como metáfora, vamos falar do altar que se encontra dentro de nós. Trago também o texto "Onde está o seu tesouro, ali estará também o seu coração". Porque a bíblia não colocou invertido "Onde está o seu coração, ali estará o seu tesouro?".  Creio que houve o propósito em provocar uma dedicação intencional na busca o que acarretaria esforço. O inverso parece que seria uma situação de comodismo onde o tesouro chegaria de alguma forma até ao coração. Porque o foco e o questionamento é qual o seu tesouro e o caminho que o coração deverá percorrer para encontra-lo. A primeira colocação demonstra um coração apaixonado e controlado pelo ser humano e no segundo, o coração demonstra o amor a Deus e está sob o seu controle. No texto bíblico a ênfase é para demonstrar que suas vontades e desejos estarão sempre no coração. O que é importante atualmente e o que ocupa a sua mente e o coração? O explorador estava com o seu coração no tesouro escondido.

Temos um altar que se encontra dentro de nós. O caminho que leva ao altar deve ser bem cuidado e limpo, sendo um claro sinal de que há preocupação e regularidade no cuidado. Somente o ativismo não vai mudar a configuração do altar. Infelizmente muitos altares estão sem a manutenção necessária que promove a acessibilidade. O Espírito Santo não habita em coração inóspito. A teia de aranha pode ser tudo aquilo que impede o agir de Deus na vida. Não me refiro somente àquilo que tenha aparência do mal. Muitas vezes o impedimento pode ser uma boa oportunidade na vida ou algo que fazia parte do sonho e agora poderá se tornar realidade. Isto me faz lembrar do desafio que Jesus apresentou ao jovem rico “...vende tudo o que tem e distribua aos pobres e depois siga-me”. Aquele jovem rico que tinha muitos bens e ainda muitos anos de vida para desfrutar da sua riqueza, ter uma companheira e poderia ter tudo o que a sua riqueza poderia proporcionar, deve ter pensado: “Sério isto Jesus!?” Quando ouviu isto, não deve ter saído de imediato. Ter a vida eterna e uma vida sintonizada com Deus era o que faltava, por isto, provavelmente, ainda tenha tentado negociar com Jesus oferecendo uma parte da riqueza aos pobres e ainda daria muito dinheiro para as comunidades que estavam surgindo. Para Jesus não existe meia palavra, pois, conhecia o coração daquele jovem rico e somente uma decisão radical poderia libertá-lo daquela escravidão aos bens materiais. Muitos estão escravizados pela vida bem sucedida, sucesso profissional, saúde em dia e relacionamentos sólidos. Tudo isto é muito bom desde que não seja este o tesouro que esteja ocupando o altar no coração. Tem surgido nos dias de hoje muitas teologias baseadas nestes tesouros da vida humana. Teologia da prosperidade ou teologia do sucesso. Ouço muito nas postagens os teólogos afirmando que Jesus não quis dizer ao jovem rico que vendesse tudo e distribuísse tudo. O objetivo destes teólogos é “abrir o leque” para que mais pessoas sejam convencidas e atraídas por um evangelho fácil de diluir. São teologias teias de aranha que obstruem o acesso do Espírito Santo ao coração. Quando isto acontece o coração se torna enganoso (Jeremias 17:9). O evangelho de Jesus é exclusivo e o caminho para a mente e o coração deve permanecer limpo e desobstruído. Apesar de ter o propósito em alcançar a todos para que sejam discípulos, o objetivo nunca foi em ter seguidores e muito menos o maior número possível de pessoas. Mas, os poucos que se rendem ao evangelho que tenham o coração limpo das vaidades da vida que, quando se torna tesouro, na verdade, são as impurezas que impedem o agir do Espírito Santo no coração. Ele é o nosso tesouro que deve ter lugar no altar. Quando o altar está cheio de teia de aranha, está inacessível e quase desativado é porque a vida de oração não faz mais parte da rotina.

Somos o templo e em nós habita o Espírito Santo de Deus quando afirmou que não habitaria mais em edificações de homens, mas, habitaria no altar que foi erigido no coração. É responsabilidade de cada um manter este altar acessível ao Espírito Santo. Muitos são os obstáculos, a carreira profissional, a vida conjugal, a vida social e todos os planos pessoais. Nada disto é errado. O errado é quando não priorizamos Deus e não o glorificamos em nossa vida. Quando se fala em vida com Deus ou em ser discípulo, isto não significa uma vida celibatária ou confinado em um convento sem qualquer perspectiva de uma vida normal. A vida tem muita coisa boa e sonhar é preciso, lutar para alcançar os objetivos, porém, tudo isto só faz sentido se glorificarmos a Deus tanto nas conquistas como também nos dias difíceis. O altar deve estar limpo e acessível em oração contínua para se manter a comunhão com Deus. O altar é onde Deus filtra a nossa vida por isto que deve estar sempre limpo. Nem teia de aranha e nem poeira deve compor o altar, mas, o coração limpo e dedicado.

GULA DIGITAL

Venancio Junior

Imagine ter uma incontinência alimentar e que ficasse beliscando um doce ou salgado a cada minuto? E se ficasse mais de três horas comendo sem parar nem um pouquinho? Como será que o organismo reagiria? Colesterol, açúcar no sangue em excesso, obesidade, fígado, rins e coração comprometidos e muita indisposição para fazer qualquer outra coisa seria uma tragédia anunciada. O sistema digestivo colapsou. Será que para usufruir dos sabores e dos nutrientes das vitaminas não seria melhor dosar o consumo ou ingestão? Dar uma pausa entre as refeições, descansar o corpo para que possa ter o tempo necessário para fazer a digestão e ter os benefícios de uma vida equilibrada e disposta é uma decisão sensata.

Será que também existe este comportamento desregulado na vida digital onde o alimento são as milhares de informações absorvidas diariamente? Nem preciso exemplificar porque já vivemos desta forma de consumo desvairado e sem limites. Ficar três horas no celular não é muita coisa porque chegam milhões de informações a todo instante que nem se vê o tempo passar. Como o cérebro reage com tanta informação ao mesmo tempo? Não temos capacidade nem para absorver 0,00000001% das informações que nos chegam diariamente e a maioria para nada serve e não mudará a vida significativamente. Não seria melhor acordar trinta minutos antes do normal com tempo para uma boa espreguiçada (da mesma forma que o cachorro quando acorda) e olha para o teto para se reconectar ao ambiente, vai ao banheiro lava o rosto e se dirige a cozinha para o café matinal? Tudo com leveza e ainda sem mexer no celular. Se você tem este costume, também não ligue a televisão para ver o noticiário. Este procedimento diário fará uma versão melhor do que você é.

Não fomos feitos para fazer tudo ao mesmo tempo e não precisamos também disto. A bíblia afirma que há tempo para tudo (Eclesiastes 3:1). Isto não é automático. É preciso predisposição em dar este tempo a si mesmo. O mundo digital quer e também precisa que se consuma para que mais conteúdo seja produzido. Quanto mais, melhor. Acredite, nem tudo que está nas redes precisa ser “consumido”. Tudo está ao alcance e disponível, mas, quem escolhe é você. Fazer nada é o seu tempo precioso exclusivo que o mundo digital quer roubar. Talvez já tenha roubado e agora quer a sua autonomia para decidir o que fazer da sua vida. Você precisa muito deste tempo “ocioso” e não permita esta intromissão externa para que o cérebro se reorganize e ofereça o melhor para si e compartilhe o seu melhor com as pessoas queridas do seu círculo de relacionamento. Com exceção da vida profissional, exposição pessoal nas redes alimenta mais a vaidade do que qualquer outra área da vida. Antigamente quando a pessoa queria demonstrar que sua vida não tinha segredos afirmava que “minha vida é um livro aberto”. Agora mudou e se diz que “minha vida é um celular sem senha”. Roube a minha vida, mas, não roube meu celular. Infelizmente muitos perdem a vida por causa do celular e se esquece que sem a vida, de nada serve o celular. Então, a vida é mais importante que o celular, mesmo que julgue que a vida esteja no celular. Praticamente tudo o que se pensa em termos de vida digital, o celular é o mundo que cabe no bolso. Agora, tente absorver todas as atividades ao mesmo tempo? Quem nunca teve um celular ou um computador travado? Nem o próprio sistema suporta tanta informação simultânea se não ampliar os limites das memórias de armazenamento e de processamento o que pode provocar um bug ou um colapso. Mesmo assim é impossível absorver tudo o que está sendo publicado e o cérebro não conseguirá absorver toda informação instantaneamente. Isto gera muita ansiedade. Nada mudará significativamente a vida se não houver uma propensão em absorvê-los seletivamente. Pode deixar o celular no modo vibrar ou, preferencialmente no modo silencioso e controle o acesso. Você no controle não deve ser somente para os gastos, mas, para o consumo de tempo também. Dedicar tempo com serenidade e com equidade gera qualidade de vida emocional e psicológica. Comece deixando o mundo do lado de fora da sua vida.

Será que é somente o celular ou laptop que rege a vida digital atualmente? Você pode dizer que não mexe muito no celular ou no computador, mas, assiste muitos filmes, séries e programas de entretenimento. Desculpe, mas, dependendo do tempo dedicado pode-se dizer que isto é sedentarismo. Quanto tempo da vida é dedicado a visitar uma mata? Observar o horizonte sem prédios, carros e movimento de pessoas é muito relaxante. Isto deve ser feito com regularidade. Quanto tempo da vida é dedicado a uma prática esportiva que, muitas vezes não é a preferida, porém, muito necessária? Uma boa caminhada já faz muita diferença no bem-estar e na saúde. Uma pedalada com amigos ou mesmo sozinho é muito saudável para o corpo, mente e o coração. Você tem o hábito de ler? Quanto tempo é dedicado a boas leituras? Ler um livro é a melhor forma de colocar um freio na rotina intensa, pois, exige paciência e atenção para observar o conteúdo reativando a cognição. A prática de leitura é um processo lento facilitando a absorção das informações e dando tempo para que tudo do cotidiano se desconecte e você se recomponha. Outros processos que ajudam na estabilidade interna é ouvir música e deixar que os ritmos e melodias desobstruam toda os caminhos do prazer, conversar com alguém intimamente ou na roda de amigos sem pressa e sem assuntos desconfortáveis, se reunir com os familiares e se interessar pela vida do outro não para fofocar, mas, para saber se está tudo bem com ele. Estas práticas deverão ser feitas sem obrigatoriedade e sem cobrança. Se não quiser fazer nada disto, que seja algo consciente e leve. Não precisa ser ativo o tempo todo. Desligue-se da rotina e saiba que você é o personagem mais importante para fazer diferença no seu contexto de vida. Nas redes sociais, a maioria das pessoas querem viver como celebridades provocando inveja e o orgulho alheio. Esta provocação não é algo novo. As novelas desde que surgiram no Brasil no final dos anos 50 tem esta magia em "transferir" a pessoa pobre para o ambiente confortável da novela e acaba se esquecendo da sua triste realidade. Os "influencers", infelizmente, cada um pior do que o outro, descobriram esta função lucrativa e ostentam uma vida luxuosa por fora, porém, podres por dentro às custas de pessoas com total ausência de senso crítico que são os seus seguidores. Siga na contramão deste sistema que coloca cabresto e não espere reconhecimento dos outros via redes sociais e, na verdade, não interessa para ninguém o que esteja fazendo. Em tempos de violação de privacidade, o melhor é não expor em redes sociais a vida familiar. Mantenha a racionalidade e a leveza emocional e psicológica o que resultará numa vida fisicamente saudável sem engasgo e sem surpresas desagradáveis.

sexta-feira, 28 de março de 2025

O DEUS DA RELIGIÃO

Venancio Junior

Qual é o deus da religião?

Pode ser qualquer um. De madeira, de ferro, de gesso ou esculpido numa pedra. Pode ser branco, preto, moreno, careca, cabeludo com ou sem barba. A vantagem em ter um deus assim é que pode levar a qualquer lugar. Ele não se importa com o frio, com o calor e pode deixar em qualquer lugar, no cemitério e nos locais de oferendas porque não tem problema se encher de bolor, pode desgastar e estará imóvel sem se preocupar. Outra grande vantagem também é que o deus da religião não tem regras definidas, pois, segue a conveniência do seu portador. Na verdade, ele não tem regras. Na linguagem da informática, já vem sem plataforma para que instale conforme o gosto do “usuário”. Ele não se importa com o que o religioso faz, seja algo bom ou ruim. Não se importa também se é fiel ou infiel com a religião ou com as pessoas do convívio. Qual a sua religião? Não importa. O deus da religião é ecumênico quando considera que todas as religiões estão certas.

Será que deus é uma entidade criada pelo ser humano? Conforme a religião, sim, o ser humano criou um deus. O deus da religião é aquele descrito em Isaías que não ouve, não se mexe e não pode salvar. Isaías 45:20,25

Vivemos o tempo de muitas religiões e, como não poderia deixar de ser, por trás de cada uma delas tem os oportunistas e vendilhões da fé que enganam e se aproveitam da carência das pessoas para alimentar os seus interesses. Não me refiro somente aos falsos pastores, mas, existem falsos líderes em todas as religiões. Com o passar do tempo, estes mercenários aventureiros criam suas próprias maneiras para manter o controle das emoções dos seus fiéis. Existem milhares de religiões e cada uma tem o seu deus de estimação ou, na melhor das hipóteses, pode até ser que estimam o mesmo deus, porém, com visões diferentes. Ninguém duvida de que cada religião limita o seu deus nas suas verdades e não permite que ultrapasse a linha, pois, está sob o controle da sua crença. Será que é verdade que não importam os dogmas e as crenças, o importante é que o mesmo deus com nomes diversos age em todas as camadas místicas de diversas formas? Parece que cada pessoa criou a sua forma de se chegar a deus, daí, surgiu a religião para agradar a todos. Para muitos, a religião não precisa ter um tipo de doutrina reguladora e muito menos de um deus exclusivo. As pessoas se sentem confortáveis quando não se é exigido algum compromisso. É bem mais cômodo crer desta forma. Viver como bem quer é muito cômodo, porém, arriscado, pois, acabamos por ser absolutos em nossas convicções. Atraímos para nós aquilo que nos agrada e nos faz bem não importando se o outro com quem convivemos também está bem e ignoramos também as diferenças que, de certa forma nos molda como sociedade. É uma falsa liberdade que anula a nossa consciência responsável. Por onde se vai este pensamento nos acompanha e nos leva a sermos egoístas e a cada dia blindados contra o amor ao próximo nos tornando pessoas frias e com nenhuma disposição em nos doar para suprir uma virtual necessidade que alguém, não importando quem, esteja passando. É um mundo que vive enclausurado nas suas próprias crenças. Estão aprisionados pela tradição e Deus veio para nos libertar da religião, pois, não criou nenhuma delas. Religião é somente tradição. Se seguissem o que Deus determinou saberiam que a tradição as afasta de Deus. Então, quanto mais próximo da religião, mais distante de Deus. Os valores da tradição sufocam os valores de Deus. Isto vale para todas as religiões, aliás, repito, Deus não criou nenhuma delas.

A bíblia nos revelou um Deus sem religião e muito diferente daquilo que imaginamos. Por isto que somos traídos pelos nossos próprios valores que vivem blindados pelo egoísmo. Para combater esta blindagem é preciso viver uma espiritualidade relacional. Parece que estou andando em círculos porque relacionamento sem a religião não existe. Existe sim e deve ser exercida sem a máscara da religião. Igreja instituição não deve ser confundida com religião. É possível e necessário viver a igreja sem a religião. O relacionamento com Deus parte do princípio de que devemos nos relacionar uns com os outros. Dizer que ama a Deus que não vê e não ama ao próximo que vê é hipocrisia. Muitos falam de amor e com a facilidade da comunicação, isto tornou-se quase que banal. Da mesma forma que a comunicação, o amor também se vulgarizou. Perdeu-se o parâmetro em se doar para construir. O amor que as pessoas vivem não é amor porque o resultado sempre trás a destruição dos valores fundamentais e necessários para um relacionamento sadio. Amar é se dedicar ao outro incondicionalmente. Isto pode ser feito através de uma comunidade cristã ou voluntariamente. Deus se voluntariou e se empenhou pessoalmente através de Jesus Cristo para que percebêssemos que o seu amor por nós foi também incondicional. Tornou-se servo para nos servir em amor. Tornou-se homem para poder sentir a nossa humanidade de perto. Amar ao próximo é demonstrar na prática o amor a Deus. Dedicar tempo e, muitas vezes, ir além deste gesto não deve ser um ritual da tradição. As religiões, sem exceção, não é, em absoluto, o caminho para Deus. Ninguém chega à presença de Deus pela religião. Pelo contrário, a religião afasta as pessoas de Deus que exige fidelidade às suas conveniências porque é uma instituição humana. O deus que pertence a alguma religião é um falso deus e a religião enquanto instituição que leva a deus, também é falsa. A religião não é o caminho, nem a verdade e muito menos vida. Jesus, o Deus encarnado é o centro e o propóstio do evangelho e não da religião.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

O AMOR DE DEUS NÃO GARANTE A SALVAÇÃO

Venancio Junior

Atualmente tem se propagado que Deus ama a todos sem distinção incondicionalmente. Isto é verdade e creio nisto também, porém, o processo de salvação não é, em absoluto, uma ação unilateral. Ser amado por Deus somente não significa ter a garantia de salvação. Tem um condicionante fundamental em que há o mesmo peso no processo de salvação que é a pessoa amar a Deus acima de todas as coisas reconhecendo-se como pecador que gera o arrependimento. Amar a Deus não é somente um sentimento, mas, demonstrar que ama de verdade com práticas que revelem este amor. Ser amado significa que Deus deseja o bem para todos e está disposto a tudo para que se tenha o melhor da vida. Deus nos criou para viver e jamais para morrer. Houve um atropelo nos planos originais de Deus que, contrariamente ao que dizem, Deus não é arbitrário. Leia o texto “Quem crer será salvo, quem não crer já está condenado “. Tudo o que se imaginar na natureza que foi criada sofreu desconfiguração na sua característica. Esta criação na qual se inclui a natureza começou literalmente a apodrecer e a vida humana e animal agora tem um fim. A água que era potável, com a intervenção humana agora é poluída e precisa de um processo de purificação. A natureza orgânica precisa ser cuidada para não apodrecer. Os metais enferrujam caso não seja aplicado o processo de lubrificação. O único processo em que não houve modificação foi o da reprodução. Tudo o que tem fôlego de vida é composto por macho e fêmea para que se multiplique. A formação sofreria deformação e o pecado é a única e principal causa da desfiguração do caráter aplicado somente a quem tem alma que é o ser humano. O pecado tornou-se um composto da alma. Portanto, os demais componentes da vida humana que não tem alma, estão fora das consequências do pecado. O texto diz que “A alma que pecar, esta morrerá”. Toda alma peca porque nasce no contexto do pecado e precisa de um processo de resgate e Deus quer saber quem deseja ser liberto o qual todos perderam o seu direito concedido por ele próprio. Repito, como Deus não é arbitrário, então, cada um decide pelo seu futuro. É necessário ter predisposição e iniciativa confiando e abandonando a vida de pecado. Vida de pecado é a desfiguração da característica original. Enquanto houver fôlego de vida, isto deve ser contínuo tendo a fé em Jesus como mediador que nos justifica a Deus. Confiando em Deus, a sua salvação está garantida mediante o seu amor quando somos aperfeiçoados em Cristo que nos justifica diante de Deus.

        Afinal, como funciona este processo de salvação? Será que basta saber que Deus existe e acreditar que tudo pode sem assumir qualquer compromisso com o criador que estará tudo resolvido? Deus nos amou primeiro, isto é fato, pois, somos criaturas feitas com amor. E o amor da criatura para com o criador? Não existe amor inconsequente. O amor é sempre para construir. Antes de perder a conexão, o amor era pleno e absoluto. Tudo era consequência do amor, por isto que a bíblia diz que nos amou primeiro porque fomos feitos por amor. Após a queda, Deus preocupou-se e se envolveu pessoalmente em Jesus para nos trazer de volta a sua presença. O condicionador desta religação é crer em Deus e saber que tudo isto aconteceu, tanto a ascensão da criatura à presença de Deus como, também, a sua destituição. Se houve um processo para sermos banidos, obviamente, há um outro processo para a recondução. Deus sempre nos amou e condicionou por livre arbítrio a salvação para quem quiser se submetendo a este processo que tem o seu início pela fé. Somos salvos mediante a fé. Será que a fé é apenas um sentimento que não precise demonstrar na prática confiança e arrependimento? Fé e arrependimento estão de mãos dadas neste processo. A fé vem primeiro, logo em seguida vem a consciência de pecador e consequentemente vem o arrependimento. Um não subsiste sem o outro.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

A OUTRA FACE NO LIMITE

Venancio Junior

Ano novo, vida nova, novos planos, novas ideias, possibilidade de novos relacionamentos, novos projetos e os velhos e necessários princípios para quem leva muito à sério as boas práticas da espiritualidade. O velho hábito em amar ao próximo como a ti mesmo e a velha mania em dar a outra face dentre outros princípios, mesmo não se aplicando, não perderam o seu valor. Pode até ser velho, mas, esta atitude na prática, se torna nova a cada desafio. No ano velho nos roubaram a alegria, o prazer, a paz e a esperança e no ano novo estamos maltrapilho ou nu e ainda precisaremos continuar dando a outra face. Estes princípios não mudam, nós é que envelhecemos em nossos pecados. A renovação espiritual não é um delírio e nem emoção que causa arrepios, mas, é retomar o caminho do crescimento que, nem sempre é fácil, porém, necessário. O convite de Jesus em dar a outra face é voltar ao caminho e vai além do sentido literal. Dar a outra face não é um momento de reação aplicada numa situação específica, mas, um estilo de vida. Dar a outra face vai muito além de um momento em que se precisou demonstrar humildade expandindo e aprofundando a atitude de entrega. Doar um “pedaço” de si e caminhar junto não importando a distância são prerrogativas dentre várias outras do discípulo. Talvez o primeiro questionamento que vêm à mente seja, “dar a outra face” não seria fazer papel de trouxa? Aparentemente tudo indica que sim, mas, esta é a ótica da mente de uma sociedade doentia que pensa só em si mesma e quer levar vantagem em tudo. Quando se fala em dar a outra face, parece que é virar o rosto para levar outro tapa. Não é isto! O sentido é mostrar o outro lado da situação demonstrando que existe uma opção. Dar a outra face é viver na contramão e romper a lógica do egoísmo. Esta reação é uma contraposição que desperta a mente do outro para aquilo que é honesto e sadio e faz bem ao coração elevando o caráter. Mas, tudo tem limite.

Mateus e Lucas relataram esta parte significativa do sermão do monte proferido por Jesus. Na minha visão, a outra face resume tudo o que foi dito sobre o sermão do monte. A característica do ser humano condizente com as bem-aventuranças propensa a dar a outra face é aquela resgatada pela graça e restaurada pelo amor de Deus. Não se trata de um sentimento de nulidade pessoal e muito menos de sacrifício de tolo. A outra face não é uma atitude impetuosa, mas, um modo de vida em Cristo como nova criatura. O contexto decadente da nossa sociedade exige como contraponto que é preciso dar a outra face para ser discípulo legítimo, o sal da terra.

A submissão conforme o contexto do evangelho é continuamente dar a outra face. Conviver com alguém difícil é dar a outra face. Fazer o que não quer, mas, o que precisa é dar a outra face. Fazer o bem a quem lhe faz o mal é dar a outra face. Negar-se a si mesmo como Jesus sugeriu é dar a outra face. Imagine conviver com alguém que te persegue e que emocionalmente te faça mal? De certa forma, é dar a outra face. Coloco assim porque esta situação não é uma regra. De repente, as pessoas sofrem por motivos diversos e permanecer nesta condição nem sempre dar a outra face é a atitude adequada. No relacionamento, cada um tem a sua parcela de "culpa" ou responsabilidade porque a humildade não deve ser sinônimo generalizado de sofrimento. Muitas pessoas demonstram humildade e reagem proativamente sem necessariamente estarem sofrendo algum tipo de assédio moral, risco físico ou pressão emocional.

Praticar a humildade não se trata de ser arrogante e acordar humilde e permanecer assim a partir daquele dia. Humildade não é uma postura isolada, mas, a postura isolada revela a humildade. É um processo que demanda basicamente renúncia e escolhas. Não pense que quanto mais decisão de boas escolhas e de renúncia a pessoa se tornará mais humilde. Não existe grau de humildade. Por exemplo, afirmar que aquela pessoa é muito ou pouco humilde não existe. O que existe é relativo à personalidade. Tem pessoas que são mais tranquilas que outras e demoram a reagir, enquanto tem outras que são mais explosivas. Tem pessoas minimalistas e tem as vaidosas e gananciosas. Em qualquer situação e independentemente do que a pessoa seja, trago o texto do apóstolo Paulo quando diz que é forte quando é fraco. Ele quis dizer que quando há a consciência da condição de pecador que carece da graça e misericórdia de Deus (sem soberba) é que se está forte não importando o que a pessoa é. Mas, quem deve considerar este valor é somente Deus. Ninguém deve se vangloriar com a humildade, obviamente deixará de ser humilde. O único caminho da espiritualidade é ser humilde em dar a outra face sendo vazio de si e com disposição máxima e contínua em servir ao outro.

Atualmente com a facilidade da comunicação presenciamos pessoalmente ou nas redes sociais pessoas (pela reação, não mereceriam serem tratadas como pessoas) que perdem a oportunidade em dar a outra face e fazer diferença no cotidiano. Tenho uma frase que diz: “A vida é simples, basta que cada um faça a sua parte”. Muitos não tem feito a sua parte em dar a outra face e reagem com ódio por motivos banais. Acredite, não é fácil, mas, é libertador conseguir dar a outra face. Precisamos ser libertos da raiva, do ódio, da ira e dos impulsos agressivos que nos aprisionam. Ao invés de exigir aquilo que se julga ser os seus direitos, dê a outra face. No trânsito acontecem as mais difíceis situações em que o desafio em dar a outra face revela o que somos, de fato. No convívio do trabalho também acontecem desafios que colocam em prova a nossa condição de discípulo. Aqueles que são “passados para trás” e são preteridos a uma promoção, como dar a outra face? Na vida social com os amigos onde, ultimamente os valores perderam o ponto comum de compartilhamento e se polarizaram, está muito difícil dar a outra face. Pessoas queridas e muito próximas tem atitudes que exigem um sacrifício inimaginável. Nas reuniões de família houve grandes desfalques porque se esqueceram de dar a outra face. Na igreja, por incrível que pareça, pois, todos teoricamente deveriam ser discípulos movidos pelo amor ao próximo, também existem os desafios para exercer a prática da humildade em dar a outra face. A religião ao invés de unir e reunir, tornou-se motivo de discórdia. E no relacionamento conjugal? Cujo nível é o mais próximo possível e não pode ser de outra maneira e, conforme o tempo passa há um visível desgaste, o relacionamento sofre desafios diários constantes onde tem acontecido muitas agressões e até feminicídios e os motivos não justificam os meios bárbaros porque faltou dar a outra face. Nestes casos de violência doméstica, faltou ao agressor dar a outra face. Uma atitude muitas vezes difícil, mas, um gesto muito simples. Como dar a outra face se uma das partes cede como forma de sujeição e se anula a ponto de subsistir com as suas próprias forças? Qual o limite para isto? Como dar a outra face quando o relacionamento não redunda em afeto, carinho e um se submetendo ao outro? Como dar a outra face quando acontece uma traição? Como dar a outra face quando cada um exige que deva ser satisfeito pelo outro? 

A espinha dorsal do relacionamento é um sustentando o outro. Não existe outro critério. Dar a outra face é o princípio em qualquer processo que envolva duas ou mais pessoas porque vai além dos limites da obrigatoriedade. Porém, devemos observar que, se esta condição se perpetuando sem que a outra parte não reconsidere que deve reagir e se esforçar também para que não se anule uma das partes, dar a outra face deve ser uma excepcionalidade e não uma atitude que seria como “dar murros em ponta de faca” que não trará a solução adequada. Jesus nunca nos disse que devemos ser tolos porque dar a outra face é sempre uma reação. O problema é que muitas vezes esta atitude de humildade não tem mudado a outra pessoa ou a si mesmo e acabamos por ter um comportamento aparentemente de tolo. Eu creio que a atitude em dar a outra face é quando os problemas do relacionamento ainda estão na superfície. Digo isto no sentido de que só existe uma profundidade no relacionamento. É preciso observar o que se encontra nesta profundidade, o amor ou os desafios? Sendo os desafios, lamento, o amor esfriará. Mas, se for o amor, os desafios serão controlados juntos. Sempre é bom lembrar que os dois não subsistem concomitantemente. Um dando suporte ao outro é dar a outra face para que o relacionamento se mantenha em pé. O “romantismo” no relacionamento em qualquer nível ou situação tem limites. Razão e coração deverão caminhar juntos. Onde um está ausente, o outro avança os limites para suprir esta carência. Porém, tudo tem seu limite e o desgaste não pode chegar a níveis de flagelo emocional e uma decisão radical deverá ser tomada. Muitos fatores deverão ser considerados e não pense que não haverá perdas. Sempre há. Dar a outra face no relacionamento é também interromper um processo que tende ao fracasso. Em muitos casos, dar a outra face é renunciar a intensidade de um relacionamento doentio e se projetar no conforto da solidão para se recompor. Não é exatamente se isolar, mas, deixar de exigir que as pessoas supram as suas necessidades. Dar a outra face é como dar um grito no deserto de valores que se tornou este mundo onde poucos sobrevivem, incluindo você mesmo. Resumindo, dar a outra face não é fazer, mas, mostrar com atitude o que o outro tem de fazer.

domingo, 22 de dezembro de 2024

O JESUS QUE (AINDA) NÃO FAZIA MILAGRES

Venancio Junior

A vida de Jesus antes do início do seu chamado ministerial é cercada de mistérios. Não existem relatos ou escritos que descrevam o que foi Jesus na infância, adolescência e juventude. Considerei que a juventude acaba nos trinta anos e a partir daí tem início a vida adulta.

Tem alguns escritos que descrevem supostamente alguns episódios da vida inicial de Jesus. Além do livro de Tomé, considerado apócrifo pelos estudiosos por não comprovar a sua autenticidade, existem alguns outros papiros antigos que tentam descrever os milagres acontecidos na infância. Inclusive, recentemente foi descoberto por dois historiadores, um brasileiro e o outro húngaro um recorte de papiro datado no quarto século e descreve supostamente o primeiro milagre de Jesus quando purificou as águas de uma lagoa. Porque eles não relatam a vida comum? Na infância e na adolescência acontece muita coisa. Principalmente que Jesus não era uma pessoa comum e muita gente gostaria de saber o que acontecia no seu cotidiano. Será que Jesus fazia “birra” na infância? E na adolescência, será que contrariava os seus pais e tinha pensamentos reprováveis? Deus enviou Jesus e antes de se envolver no cumprimento da missão a que foi proposto, ele tinha de, não somente viver o contexto da vida humana, mas, também sentir o que o ser humano sentia. “Deus se tornou carne...” João 1:14. Não somente se tornou carne, mas, carregou consigo tudo o que a carne pôde sentir. Jesus não viveu como Deus. Nesta fase inicial da sua vida precisava viver exclusivamente na carne. “...mesmo sendo Deus, esvaziou-se e se tornou meramente humano” Filipenses 2:6,7. Se na tua vida você fosse Jesus, o que será que faria considerando tudo o que te envolve?

Vamos começar por aí, será que Jesus antes do início do seu ministério tinha poder para realizar milagres? O poder de milagre de Jesus não era para brincar de mágica. Creio que Jesus tinha a orientação em utilizar poder a partir do início do seu ministério aos 30 anos logo após ser batizado no rio Jordão. No livro do primeiro evangelho Mateus descreve a afirmação de Jesus na grande comissão do Ide em ter recebido de Deus todo o poder no céu e na terra (Mateus 28:18). Obviamente muitos questionarão o episódio no templo em que Jesus com apenas doze anos confrontou os sacerdotes doutores da lei. Sinceramente, no contexto humano é raro, mas, existem pessoas superdotadas. Jesus pode ter sido um garoto superdotado, pois, estava entrando na adolescência. Seria surpreendente se isto acontecesse quando ainda criança e não sabia falar. Mas, o problema é que Jesus afirmou aos seus pais, que o procuravam desesperadamente, que estava na casa do Pai dele já cumprindo a sua missão em obediência. José era o pai adotivo e Deus é o legítimo pai que, através do Espírito Santo, inseriu a semente em Maria para que engravidasse. Um detalhe interessante é que os doutores se admiravam da sua inteligência. Há uma grande diferença entre sabedoria (postura) e inteligência (conhecimento).  Para se conhecer algo é preciso buscar o saber de forma prática. Jesus, com certeza estudou as leis judaicas e provavelmente possuía o dom excepcional do conhecimento. Lucas 2:47,49

A crença de que Jesus já nasceu com poder nunca foi questionada. Muitos creem que Jesus é semelhante a Hércules que, quando criança, brincava com as serpentes e fazia outras estripulias revelando a sua força. Eu creio que Jesus tinha poder na infância, mas, só seria “ativado” em consonância com o conhecimento. Na adolescência ele buscou o conhecimento das leis e da vida tendo demonstrado sabedoria no controle da sua divindade. Na juventude eu creio que Jesus não deu vazão aos impulsos da sua idade e, tipo, se anulou porque tinha plena ciência da sua missão e não fazia sentido sair pela vida fazendo milagres a revelia. Se tivesse acontecido, o alvoroço e a notícia se espalhariam. Naquela época seria um evento marcante porque todos estavam de olho em Jesus para ver o que iria acontecer. Ele foi anunciado como o Messias, o Salvador da humanidade e o seu nascimento foi cercado de expectativas pelos judeus. Jesus não realizou milagres que poderiam ser conhecidos porque o seu poder tinha um propósito com começo, meio e finalidade. Não há registro nesta fase inicial da sua vida, pois, nada aconteceu de relevante porque Ele quis assim.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

JESUS, O FILHO DE JOSÉ

Venancio Junior

“E o mesmo Jesus começava a ser de quase trinta anos, sendo filho de José...” (Lucas 3:23).

Porque será que Jesus nunca questionou sua descendência? Jesus não era filho biológico de José que era, de fato, o legítimo descendente de Davi. Então, porque era reconhecido como pertencente a sua linhagem familiar e não a de Maria sua mãe biológica? Algumas interpretações forçam o parentesco biológico de Maria com a linhagem de Davi, porém, não há qualquer texto que evidencie esta conexão. A interpretação mais provável é que Maria tornou-se uma só carne com José, agora fazendo parte da linhagem de Davi conforme o texto de Lucas 2:4,5 "...por ser ele (José) da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida". De qualquer forma, a linhagem tem alguns episódios trágicos e sombrios que envolvem tramas de assassinato, estupro e prostituição. O mais conhecido é o de Davi e Jesus sabia do triste episódio envolvendo o caso com Bate-Seba ou Betsaida, viúva de Urias e a mulher com quem Davi cometeu adultério. Posteriormente Bate-Seba se tornou esposa de Davi e veio a ser a mãe do rei Salomão. Mas, antes disto, tem alguns questionamentos, Bate-Seba sabia que no local onde tomava banho ficava muito exposta à visão do rei? Porque Bate-Seba se expôs a Davi? Se os banhos neste local eram frequentes, será que Davi manteve a postura real e evitava observar? Se não era um lugar comum onde tomava banho, será que Bate-Seba queria provocar Davi? Esta virtual provocação era por causa de um problema conjugal com Urias? Ele era um fiel comandante do rei. Por diversas vezes optou em permanecer subjugado às suas atribuições militares e até “desobedeceu” ao rei que deu ordem para que fosse para casa e fizesse sexo com a sua esposa que já estava grávida de Davi. Baseado nisto, será que Urias não estava negligenciando o relacionamento conjugal com a sua esposa e isto frustrava Bate-Seba que se permitiu ser observada porque sabia que o rei Davi esporadicamente observava a cidade daquela varanda? Mas, a pergunta que ninguém ousa fazer: Será que, se Davi não fizesse aquela “emboscada” com Urias para que morresse e não soubesse da traição da sua esposa Bate-Seba, não teria nascido Salomão e o próprio Jesus seria de outra linhagem que não fosse a de Davi? Quando Maria foi a escolhida, ela já estava prometida a José que descendia desta "grande família".  Deus poderia tranquilamente falar com Maria que arrumaria outro marido porque a família de José era problemática e não gostaria que Jesus tivesse uma descendência que "manchasse a sua honra". Deus não mudou o que já estava preestabelecido e ainda legitimou a adoção de Jesus por José e também não relevou as maldades humanas a uma condição que comprometesse os seus planos.

Este não foi o único escândalo na família de Davi. Tem o triste episódio da relação de Tamar com o filho primogênito de Davi, Amnon que acabou sendo assassinado por seu outro filho, Absalão por ter estuprado sua irmã Tamar por parte de pai. Esta é uma outra longa história das tragédias desta família. E os escândalos não param por aí. Na genealogia de José ainda consta Tamar (não é a filha de Davi) que se fingiu de prostituta e se engravidou do sogro. Tinha Raabe a prostituta que escondeu os espias hebreus e Rute que seduziu Boaz para melhorar a vida da sua sogra pobre. O machismo era tão forte que nos relatos bíblicos lemos que o pai gerou o filho. O autor teve o cuidado de incluir estas mulheres que eram citadas como sendo a mãe de alguém que o pai gerou. Não nesta ordem. O pai gerou e depois falava quem era a mãe. Com exceção de quando chegou em José, não se lê que ele gerou Jesus, no evangelho consta que era marido de Maria que gerou Jesus sendo a única citação de uma mulher que gerou um filho e foi o único motivo em ter sido incluída na genealogia. Esta é a família que os judeus consideram ser da descendência de Jesus.

No evangelho de Mateus logo no primeiro capítulo que consta esta genealogia de José que inclui Jesus como sendo o seu filho adotivo. Jesus como ser humano tinha de ter um pai. A questão familiar na época de Jesus era algo muito importante por causa da herança, não somente dos bens, mas, da linhagem cultural. Nesta época a escolha do marido para a filha era motivada principalmente para estabelecer a linhagem familiar. Pouco ou quase nada importava a questão sentimental até mesmo do homem e o sucesso emocional no relacionamento conjugal era algo secundário. Na maioria das vezes nem era considerado. O homem ainda na sua tenra idade não escolhia a sua mulher e esta, por sua vez, escolher alguém era uma utopia, sofria calada e submissa. Esta é uma condição imposta pelo gênero masculino e não é mandamento de Deus. Não chega a ser uma “conivência divina” de tudo o que acontecia. Eu acho que Deus não queria complicar ainda mais o contexto da vida humana. Então, José era o herdeiro da linhagem de Davi. Com exceção do texto de Lucas que, por razão desconhecida relatou a genealogia de Maria, na maioria das vezes as mulheres nem eram relacionadas na genealogia. Em hipótese alguma é uma desvalorização do gênero feminino. Por sua vez, os homens não aceitavam nenhuma submissão à mulher. Não podemos considerar que a descendência de Maria era todo mundo “santinho”. A própria Maria, mesmo Deus tendo escolhido para ser a mãe de Jesus porque encontrou virtudes, era pecadora como qualquer outro que foi expulso da presença de Deus. Se Maria não reconhecesse a sua condição de pecadora e não cresse em Jesus, seu próprio filho como o seu Salvador, o seu destino estava selado como o dos demais seres humanos. O fato de ter sido escolhida para ser a mãe de Jesus não há nenhum privilégio ou garantia da salvação. Algo que se deve ser esclarecido e, que Maria em alguns episódios esquecia é que ela era mãe de Jesus e não do Messias. Jesus por diversas vezes dizia a ela: "Mulher, o que tenho eu contigo?" João 2:4. Com o avanço atual dos recursos tecnológicos, se fizesse um exame de DNA em Jesus, não encontraria algum gene de Davi. Ele não era da família de Davi, pois, Maria tinha outra vertente genealógica.

Porque, então, há várias exclamações “Jesus, filho de Davi!”? Primeiramente foi uma promessa de que o Messias viria da descendência de Davi. É uma questão também cultural por causa da herança familiar e Deus também demonstrou que a adoção de filho é também legítima. O filho adotado poderia herdar os bens e compor a genealogia. Deus respeitou a questão cultural e Jesus era o filho adotado pela linhagem de Davi. Apesar de que, quando José soube que Maria estava grávida, não se atentou de que era do Espírito Santo e ficou muito chateado. A princípio, qualquer um ficaria. Talvez porque era algo difícil de se conceber. A maioria daqueles que criam, conhecia ou, pelo menos, ouviu falar nas ações do espírito de Deus. José não compreendeu, mas, aceitou, como também, adotou Jesus como sendo o seu filho e o trouxe à linhagem de Davi mantendo uma relação normal de pai e filho tanto é que ensinou a sua profissão ao seu filho Jesus. Este comportamento de José fez toda a diferença no contexto da religião judaica da época que igualmente aceitou esta adoção e Jesus era conhecido como sendo da linhagem de Davi.